ProjectoMAP
“Del rigor en la ciencia”
… Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal perfeição que o mapa duma Província ocupava uma Cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira.
Com o tempo esses Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedades entregaram-no às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas.
(Suaréz Miranda: Viajes de Varones Prudentes, Livro Quarto, Capítulo XIV, Lérida, 1658.)
—Jorge Luis Borges in História Universal da Infâmia
ProjectoMAP: Mapa de Artistas de Portugal
Em Breve
O ProjectoMAP é um projecto curatorial de pesquisa e mapeamento do universo da arte contemporânea em Portugal, inspirado na experiência da exposição Friends+Freunde+Fründ, realizada nas Kunsthallen de Düsseldorf e de Berna em 1969.
Entendendo o universo da arte contemporânea como um território de cruzamento de redes pessoais e profissionais, o ProjectoMAP nasce com o intuito de traçar um mapa da criação artística contemporânea portuguesa,.seguindo os pressupostos da exposição original: revelar as ligações (e subsequentemente o contexto alargado) que os artistas constroem e habitam ao longo do seu trabalho.
A partir de quatro artistas convidados a partilhar um fragmento da própria rede de referencias pessoais, o PojectoMAP explora a densa teia de relações que liga diferentes gerações, práticas e contextos, segundo um processo espontâneo e potencialmente infinito, que faz da colaboração activa dos artistas participantes a sua principal ferramenta.
A plataforma online projectomap.net, primeira fase de um projecto multifacetado e de longo curso, tira partido das possibilidades oferecidas pelas tecnologias de informação e apresenta um mapa gráfico, dinâmico, informativo e interactivo, oferecendo uma diferente leitura da geografia da criação contemporânea portuguesa, estimulando novas associações e sugerindo leituras inesperadas de um universo frequentemente entendido como recôndito e fragmentado.
Ferramenta de investigação e informação sobre os diversos agentes e os seus contextos de produção, as suas ligações e ramificações no contexto internacional, este site quer também servir como ponto de partida para uma exploração do universo das artes plásticas contemporâneas em Portugal, recolhendo e disponibilizando, livre e universalmente, uma base de dados com os perfis de cada artista representado no mapa, para um publico profissional e interessado, dentro e fora de Portugal.
Gênese
Em 2010 o Colectivo de Curadores, um grupo de trabalho criado por Alda Galsterer. Felipa Almeida, Moritz Elbert e Verónica de Mello, desafia quatro artistas contemporâneos activos em Portugal, Ana Pérez-Quiroga, João Paulo Serafim, Pedro Barateiro e Sara & André, a sugerir dois nomes de artistas centrais no seu universo artístico e pessoal. De gerações diferentes e trabalhando media e linguagens distintos, os processos criativos e a obra destes quatro artistas apresentam uma forte vertente relacional.
A metodologia é inspirada no convite lançado em 1969 por Karl Ruhrberg e Harald Szeemann (então directores das Kunsthallen de Düsseldorf e Bern, respectivamente) a quatro artistas (Daniel Spoerri, Karl Gerstner, Diter Roth e André Thomkins) para integrarem a exposição Friends+Freunde+Fründ (Os amigos). Ligados por laços de amizade, propuseram mostrar, além das suas obras, os trabalhos (objectos, cartas, obras de arte…) dos seus amigos e dos amigos destes, na tentativa de representar o universo espiritual que eles todos partilhavam, expondo as suas redes pessoais.
O grande sucesso desta exposição, com mais de 400 peças expostas e as inúmeras questões que levantou em âmbito artístico, motivaram o desejo de verificar, 41 anos mais tarde, a validade desta abordagem curatorial.
A investigação
A plataforma projectomap.net é parte de um projecto alargado de exploração e mapeamento do universo das artes contemporâneas em Portugal que afunda as suas raízes numa exposição realizada, há mais de quarenta anos, por um pequeno grupo de artistas a residir em Düsseldorf, na Alemanha.
Com a intenção de ancorar o projecto numa perspectiva histórica, o ProjectoMAP encontrou na exposição colectiva “Freunde, Friends, d’ Fründe” de 1969 o seu ponto de partida, não só por ser um das primeiras exposições nascidas e realizadas a partir da iniciativa de um grupo de artistas, mas também por querer expor, através uma enorme colecção de objectos (a exposição tinha mais de 400 peças entre obras de arte e objectos de uso quotidiano, livremente misturados) o universo emocional e espiritual que os artistas partilhavam com a rede alargada dos seus amigos.
O ProjectoMap
Ponto de partida do processo de mapeamento foi um jantar “ritual” organizado nos primeiros meses de 2010. Tal como a exposição Freunde tinha nascido à mesa do restaurante que Spoerri criou em Düsseldorf, o ProjectoMap quis marcar o seu arranque com um jantar ritualizado, onde os quatro primeiros artistas convidados podiam entrar em contacto directo com o projecto. O jantar ofereceu um importante momento de troca de ideias entre os artistas e o Colectivo de Curadores, questões foram debatidas e algumas regras de funcionamento rescritas, toda a documentação até então recolhida foi organizada e facilitada aos presentes.
Mas a finalidade principal do jantar era a revelação dos dois nomes que cada artista sugeria para inclusão no projecto, despoletando assim o processo de multiplicação dos intervenientes e da criação de rede.
Partindo do universo pessoal dos quatro artistas convidados, desenvolveu-se um segundo circulo de ligações a oito artistas. A partir deste primeiro momento, cada sucessiva “geração” de artistas, não no sentido de descendência mas em termos de relação, é convidada a revelar outros dois nomes, acrescentando, de maneira exponencial, pontos e linhas ao mapa.
Desde o seu início o projecto de mapeamento quis abrir-se ao conjunto de artistas que tem como referência o contexto alargado das artes contemporâneas de Portugal, estimulando a inclusão de artistas estrangeiros que decidiram eleger Portugal como base do seu trabalho, tal como artistas portugueses a residir e trabalhar no estrangeiro. Focalizado nas artes plásticas, o mapa inclui também artistas cuja obra só de maneira tangencial toca neste contexto, tal como artistas que incluem no seu universo práticas de curadoria ou programação cultural, propondo uma abordagem transdisciplinar e polifónica do projecto.
O processo assim activado e cujo fim teórico coincide com a exploração de todas as infinitas ligações, segue uma simples progressão geométrica e assenta no princípio fundamental que o seu avanço deve ser espontâneo.
O contacto directo e o envolvimento activo dos artistas do projecto tem sido desde então uma ferramenta fundamental na construção do projecto, proporcionando fortes estímulos e grandes impulsos para o futuro desenvolvimento do ProjectoMAP. No momento da sua primeira apresentação em finais de 2011, a plataforma online projectomap.net, apresenta as primeiras três gerações completas de artistas, totalizando um número de 28 criadores que aceitaram participar no projecto.
O futuro
A natureza experimental e de constante crescimento do projecto confronta-nos com grandes desafios para o seu desenvolvimento futuro. De grande importância são os vários momentos de apresentação ao público que estão previstos para 2011 e 2012: alem da mesa redonda no âmbito da Arte Lisboa em finais de Novembro de 2011 e de duas conferências agendadas nas Universidades de Évora e do Porto o projecto pretende expandir-se fora dos seus âmbitos naturais e alcançar um público mais alargado dentro e fora de Portugal, promovendo activamente momentos de discussão com o público.
Conscientes que a sustentabilidade económica e organizativa do projecto é condição essencial para uma extensão a longo prazo, imaginamos que atingida a sua maturidade, o ProjectoMAP deverá sair do seu âmbito estritamente virtual e voltar a discutir, em formatos diferentes, as suas premissas e os seus resultados, talvez através de uma exposição das obras dos artistas participantes, que possa restabelecer o contacto directo, físico e material entre o público, o artista e a sua obra.
Lista de Artistas
Alberto Carneiro
Alexandre Estrela
Ana Cardoso
Ana Pérez-Quiroga
Ângela Ferreira
António Contador
Bárbara Assis Pacheco
Claudia Fischer
Daniel Blaufuks
Gonçalo Pena
J.M. Gusmão e P.Paiva
Joana Craveiro
João Paulo Serafim
João Simões
José Luis Neto
Maria Lusitano
Marta Wengorovius
Miguel Bonneville
Natxo Checa
Pedro Barateiro
Pedro Cabrita Reis
Ramiro Guerreiro
Raquel Melgue
Ricardo Valentim
Rita Sobral Campos
Rodrigo Oliveira
Sara e André
Von Calhau
Contexto Histórico
A exposição “Freunde, Friends, d’Fründ”,
Kunsthalle Bern (Maio de 1969) e Kunsthalle Düsseldorf (Junho-Julho 1969).
*[...] Agora aconteceu algo que na vida de um curador [Kunst-Managers] só acontece raríssimas vezes; Daniel [Spoerri] não queria expor sozinho mas com amigos: Karl Gerstner, Diter Rot e André Thomkins. E todos queriam mostrar obras de amigos e de amigos dos amigos: o seu mundo espiritual. E íntimo. Cartas, fotografias, documentos, objectos, coisas amadas e também kitsch. Não é uma má ideia, pensei eu. Harald Szeemann associou-se a nós mais tarde, e concordou. […] Uma exposição atípica. Oxalá, um novo modelo sobre o qual divagar e fazer variações. Os amigos estavam de acordo. […] Porque espero que “Freunde, Friends, d’Fründ” seja mais do que isso [quatro Suíços em Düsseldorf].
O menos convencional possível. Talvez conseguimos. [...]”—Karl Ruhrberg
In (Prefácio para a exposição) Freunde, Friends, d’ Fründ, 1969
Tradução livre
A exposição Freunde, Friends, d’ Fründe, nasce do convite proferido em 1968 pelo então director da Kunsthalle Düsseldorf, Karl Ruhrberg, ao artista plástico Daniel Spoerri para realizar uma exposição nesta cidade alemã. Figura de ponta do Novo Realismo (assinou em 1960 junto com Yves Klein, Arman, Francois Dufrêne, Raymond Hains, Pierre Restany, Jean Tinguely e Jacques de la Villeglé o manifesto deste movimento) e com fortes ligações ao Fluxus. Spoerri tinha-se estabelecido em Düsseldorf e aberto o Restaurant Spoerri (em 1970 instala no piso superior a sua mais conhecida Eat-Art Gallery). A intenção era de retomar aqui a experiência feita com um restaurante efémero criado em Paris em 1963, onde o ritual da produção, apresentação e consumo de comida queriam representar uma metáfora do mundo das artes da época.
Durante um dos jantares onde, num ritual encenado por Spoerri, as mesas e os restos de comida eram transformadas em obras de arte (uma especial versão dos seus Tableaux-piège – quadros-armadilha) surge a proposta de realizar uma exposição colectiva em conjunto com outros três artistas suíços residentes em Düsseldorf, Dieter Roth, André Thomkins e Karl Gerstner, que integravam o seu círculo de amigos mais estreito.
Da mesma geração mas vindos de experiências profundamente diferentes, tinham-se conhecido em Bern e reencontrado em Düsseldorf no universo do Restaurant Spoerri, e contribuído desde então para a sua programação cultural com várias instalações e exposições.
Nesta realidade surge a proposta de realizar uma exposição que fosse o retrato do universo pessoal e espiritual dos artistas, convocando para os espaços da Kunsthalle de Düsseldorf, os amigos e os amigos destes, expandindo exponencialmente a rede de intervenientes (e obras de arte) em exposição.
Prefigurando a ideia que posteriormente Spoerri irá desenvolver nos Musées Sentimentales, onde os objectos banais do quotidiano são entendidos como portadores de histórias, a exposição acolherá ao lado das obras de arte, cartas, objectos pessoais e de uso quotidiano recolhidos através de uma grande rede de amigos, directa e indirectamente envolvidos com os quatro artistas iniciais e com o mundo das artes em geral.
Nesta “Lawinenausstellung” (exposição-avalanche), como mais tarde a chamaria Harald Szeemann numa entrevista, acabaram por participar ao lado dos quatro artistas iniciais e dos seus amigos, artistas como Josef Albers, Arman, Joseph Beuys, George Brecht, John Cage, Christo, Marcel Duchamp, Meret Oppenheim, Günther Ücker, reunindo num processo quase incontrolável, cerca de 50 participantes com mais de 400 peças.
A organização da exposição, conhecida mais tarde como a Freunde-Ausstellung (exposição dos amigos) ficou a cargo da Kunsthallen de Düsseldorf e também da Kunsthallen de Bern que se tinha associado mais tarde a através da figura do seu director Harald Szeemann. A estreia foi marcada para maio de 1969 em Bern e uma segunda etapa iria realizar-se durante o verão em Düsseldorf.
“Amigos,
Sempre foi meu sonho fazer uma exposição na qual eu não tivesse intervenção. Agora chegou a hora. E ainda por cima com vós os quatro. Conheceram-se em Berna e actualmente vivem em Düsseldorf. Por esta razão realizar-se-á nestas duas cidades. Talvez com esta exposição os museus voltem de novo a fazer [percursos] “monográficos” mais do que só organizar exposições. Em todo caso é o nossa intenção testar este modelo especialmente para nós, porque vocês têm a experiência de trabalhar em conjunto e nós não.
Pelo que vos desejo muito êxito para a vossa exposição nas nossas “casas”.Harald Szeemann
In (Prefácio para a exposição ) Freunde, Friends, d’ Fründ, 1969
Tradução livre
André Kamber, grande amigo de Daniel Spoerri e antigo director do Kunstmuseum Solothurn, que acompanhou toda a preparação da apresentação em Bern, relembra que esta exposição representou uma “insider exhibition” – estavam aqui apresentados artistas que nunca tinham feito exposições anteriormente – e cujo impacto ficou limitado ao mundo das artes. Mais conhecido ficou o escândalo associado à mostra que rebentou antes da sua inauguração. Relembra Kamber: alguns dos artistas quiseram intervir na mostra removendo alguns desenhos da artista Dorothy Iannone, ligada a Dieter Roth, por medo de uma possível censura pela sociedade de Bern. Uma auto-censura preventiva que, tolerada por Szeemann (já em conflito aberto com a cidade e provavelmente com medo de represálias de financiadores), gerou forte polémica entre os artistas e finalmente motivou a saída de Dieter Roth da exposição de Bern. No entanto os dois artistas exibem os seus trabalhos na apresentação de Düsseldorf, mas o gradual afastamento dos quatro artistas do primeiro núcleo e as dificuldades que a organização de uma exposição com estas características colocava, impediram a desejada prossecução da itinerância e encerraram esta experiência.
Recentemente, na ocasião do octogésimo aniversário de Karl Gerstner e Daniel Spoerri, a Biblioteca Nacional Suíça convidou André Kamber, no âmbito de uma exposição comemorativa, a realizar um mapa das amizades dos dois artistas. Profundo conhecedor das redes dos artistas, o curador representou graficamente o legado da exposição de 1969, revisitando idealmente o projecto e demonstrando assim a actualidade do processo.
A exposição “Freunde, Friends, d’Fründ” é para o Colectivo de Curadores o Leitmotiv da investigação sobre a qual o ProjectoMAP é construído, representando uma experiência rara no panorama das artes visuais e plásticas dos anos 60 e 70. Uma abordagem curatorial que encerra em si própria não só uma pratica até então inédita, como também revela aspectos mais profundos dos seus protagonistas. Mas apesar do seu interesse numa perspectiva histórica sobre práticas curatoriais, não foi objecto até agora de uma revisão crítica substancial, encontrando-se a maior parte dos materiais documentais ainda dispersos entre um grande número de arquivos, acervos e colecções públicas e particulares, entre Suíça e Alemanha.
O contacto com as instituições promotoras e a constante procura de testemunhas directas e indirectas dos acontecimentos da época, tornaram-se assim os instrumentos mais valiosos de recolha de informações e são parte integrante do processo de mapeamento do ProjectoMAP.
Esta investigação, iniciada em 2010, prolongar-se-á ao longo do ano 2012, quando todos os materiais recolhidos e sistematizados serão devolvidos à esfera pública, na intenção de estimular uma reflexão e um debate alargado sobre a história e seu o peculiar processo.
André Thomkins
Nasce em Lucerna, Suíça, em 1930. Vive e trabalha a maior parte da sua vida na Alemanha, onde falece em 1985.
Artista multifacetado, o seu trabalho entra dificilmente nas categorias clássicas da historia de arte como mostra a sua última exposição póstuma em Londres (2009).
Para Thomkins qualquer material pode tornar-se um suporte para o seu trabalho, não reconhecendo as fronteiras entre arte e vida. Apelidado pelos seus amigos de “Schwebsel” – palavra alemã que descreve uma partícula muito leve que flutua pelo ar, André Thomkins expõe pouco ao longo da sua vida, recusando etiquetas e fama fáceis, dando prioridade ao seu trabalho, desenvolvido ao longo do tempo com diferentes galerias e instituições.
Ponto fixo ao longo de toda a sua obra é a série Lackskins, realizados segundo uma técnica por ele desenvolvida, onde vernizes flutuantes numa superfície de água, na qual formam delicados ornamentos espontâneos, eram passados para o papel. O acaso e a consistência do material determinavam o aspecto final do trabalho.
Destacam-se ainda as pinturas que pertencem à série Astronaut – criadas na sequência do choque que abalou o mundo quando a União Soviética conseguiu por o primeiro satélite artificial no espaço, o Sputnik, uma série de peças musicais, compostas e interpretadas pelo próprio artista, e a série de retratos.”Portraits” realizada nos anos ’80.
Em 1989/90, uma extensa retrospectiva foi apresentada em Berlim e Lucerna. Em 1999, o Instituto Suíço para Investigação na Arte, publica o catálogo raisonné sobre o artista, no mesmo ano em que o Kunstmuseum Bern expõe “Traumszene” (cena de sonho). Mais recentemente foi realizada a exposição “Sorti du Labyrinthe” na galeria Hauser & Wirth em Zurique (2004) e “A.T. 3D. O mundo espacial de André Thomkins” no Kunstmuseum Liechtenstein (2003).
Daniel Spoerri
Nasce em Galati, Roménia, em 1930. Vive e trabalha em Viena, Áustria.
Após a morte do pai, em 1942, refugiou-se com a família na Suíça onde foi adoptado pelo tio, Théophile Spoerri, em Zurique. Entre 1950 e 1959 estudou ballet clássico, dança e mímica, chegando a ser Primeiro Bailarino da Ópera de Berna, trabalhando também como cenógrafo, compositor e coreógrafo. Foi ainda director adjunto do teatro de Darmstadt na Alemanha, antes de se fixar definitivamente em Paris em 1959.
Escultor, artista de performance e escritor, as experiências no teatro proporcionaram sempre a base para os seus trabalhos artísticos, cuja produção iniciou em Paris em 1959. Desde cedo manifestou um espírito multidisciplinar: além de organizar banquetes, festivais e exposições, fundou uma editora, a MAT (Multiplication d’Art Transformable), especializada em poesia concreta.
Em 1960 Spoerri conhece Yves Klein por intermédio de Jean Tinguely (que tinha conhecido em Basileia, em 1949) e torna-se membro-fundador do Novo Realismo. No mesmo ano produziu os seus primeiros tableaux pièges (quadros-armadilha), caracterizados por objectos agregados aleatoriamente e colados sobre peças de mobiliário e outros suportes, na posição exacta onde tinham sido encontrados.
Ao apresentar as esculturas assim conseguidas na vertical, como se os objectos desafiassem as leis da gravidade, Spoerri transformou as suas naturezas mortas realistas em verdadeiros quadros (hoje em dia, por questões de conservação a maioria delas encontra-se emoldurada com caixas de acrílico). O seu uso de objets trouvés como fragmentos do quotidiano, bem como o recurso ao acaso na construção das suas composições, sublinham a descendência dos Novos Realistas do precedente movimento Dada.
Apesar de Spoerri ter continuado a desenvolver os processos de assemblagem, o artista continuo a trabalhar as performances ao vivo, como por exemplo em Autothéâtre, um projecto no qual colaborou com Tinguely a partir de 1953.
Em 1963 começa o seu envolvimento com o movimento Fluxus.
Depois de viver na ilha de Simi, perto de Rodes, em 1966–67 mudou-se para Düsseldorf, onde abriu, em 1968, um restaurante com o seu nome, o Restaurant Spoerri, e que decorou com a sua correspondência dos 15 anos anteriores. Dois anos mais tarde, fundou a Eat Art Gallery no primeiro piso por cima do restaurante, onde durante dois anos apresentou exposições individuais de obras efémeras feitas com comida, realizadas por artistas como Joseph Beuys, Richard Lindner, Ben, entre outros, bem como por artistas vindos dos Novos Realistas, como Arman, César e Niki de Saint Phalle.
A mostra Musée sentimental (Paris, Pompidou, 1979), que foi seguida por exposições semelhantes na Alemanha (Colónia, Kunstverein, 1979) e na Suíça (Basileia, Gewerbemuseum, 1989), permitiu a Spoerri de criar uma aproximação à ideia de um Museu de Cultura. Em todas estas exposições utilizou documentos históricos para focar a atenção sobre várias questões, como a pergunta “Em que consiste a cultura de uma cidade?”, ou “Como podem ser representadas todas as suas referências — artísticas, religiosas, científicas, económicas, jurídicas e desportivas?”, O museu cultural é entendido como um museu vivo, no qual os objectos contam histórias.
O próprio Spoerri continuou a envolver-se em inúmeras actividades. Entre 1977 e 1982 leccionou um curso de multimédia na Fachhochschule für Kunst und Design, em Colónia; e em 1978 organizou um banquete-festival intitulado Hommage à Karl Marx, tendo também concebido a cenografia e o guarda-roupa da produção de Wintermärchen de Peter Zadek.
Actualmente o artista, com mais que 80 anos, continua a trabalhar, dedicando-se a novos projectos, como, por exemplo a construção em 2009 na Áustria de dois espaços dedicados à arte, “Kunst-Staulager”, um deles pensado como museu, e o outro como restaurante (Eat Art). Além de expor os trabalhos do próprio Spoerri, estes espaços foram pensados para acolher obras de outros artistas. Ao introduzir uma “gralha” no nome, usando “Staulager” em vez de “Schaulager”, acaba por induzir também um novo sentido no nome: SCHAU – vem de ver, observar, STAU – vem de atravancar, juntar de forma desorganizada, entupir. E assim o artista mostra que nunca perdeu o seu sentido de humor e a grande ironia de como entende o mundo à sua volta.
Dieter Roth
Também Dieter Rot, Diter Rot.
Nasce em Hannover, Alemanha, em 1930; reside parte da sua vida adulta na Islândia. Morre em 1998 em Basel, Suiça.
De família suíço-alemã, em 1943 vai viver para Zurique onde inicia nesse mesmo ano os seus estudos em artes gráficas e mais tarde em litografia.
Fortemente influenciado pela estética construtivista suíça (Max Bill, R. P. Lohse) durante a década de cinquenta, elabora colagens, obras têxteis e de joalharia, assim como obras próximas da arte óptica e da poesia visual. A criação de livros de artista é fundamental na obra de Roth, tendo elaborado mais de cem livros ao longo da sua vida. A partir dos anos 60 o seu trabalho torna-se multiforme, graças à manipulação de técnicas diversas, jogando com a acumulação de elementos e a decomposição das formas e das matérias. A sua obra surpreende pelo uso de materiais orgânicos como suporte e torna-se um marco para os seus contemporâneos.
Conhece Daniel Spoerri em 1950, e é através desta amizade que cria uma ligação aos movimentos Novo Realismo e Fluxus. Durante os anos 60 e 70, colabora com vários artistas Fluxus, tais como Robert Filliou, Nam June Paik, Dick Higgins ou George Brecht entre outros. Nas múltiplas obras que criou com estes autores utilizou principalmente materiais orgânicos, demonstrando um interesse pelo aleatório, o instável e o perecível: e.g. leite coalhado sobre uma folha de papel ou excrementos de animais.
Este interesse pelos materiais compósitos é uma constante nas suas obras, constituídas pela acumulação de elementos heterogéneos, como as colagens de papel, fotografias e objectos vários da vida quotidiana, trazidos para os seus quadros. Materiais orgânicos como o chocolate, o caramelo ou o queijo tornam-se suportes fundamentais dos seus projectos.
A questão autobiográfica ligada à vontade de evitar a ruptura entre a arte e a vida está constantemente presente na sua obra e expressa-se através de colecção de objectos ou através da projecção de filmes.
Dieter Roth integrou a Documenta de Kassel entre 1968 e 1977, representou a Suíça na Bienal de Veneza de 1982, e está representado em colecções de museus relevantes como o MoMa (Nova Iorque) ou o Centre d’Art Georges Pompidou (Paris).
Karl Gerstner
Karl Gerstner nasce em Basel, Suíça, em 1930.
Desde cedo, paralelamente à sua formação como tipógrafo e designer gráfico no atelier de Fritz Bühler, desenvolve a sua pesquisa como artista autodidacta. Após uma breve passagem pelo museu etnográfico de Basel, é chamado como designer gráfico para a industria química Geigy (hoje Novartis) onde desenvolve, em colaboração com Max Schmidt, o conhecido “estilo Geigy”. Deixará e empresa três anos mais tarde começando a sua carreira independente.
Em 1959, juntamente com o escritor e editor Markus Kutter, cria em Basel a agência de gráfica e publicidade Gerstner + Kutter que, com a chegada do arquitecto Paul Gredinger, assumirá o nome de GGK, estabelecendo-se como a maior agência de publicidade da Suíça, criando as corporate identities de clientes como Volkswagen, Citroen, Swissair, Ford, Nestlé e IBM, expandindo gradualmente a sua actividade a nível global.
Em 1967 Gerstner, encarregue de abrir uma filial da GGK em Düsseldorf, transfere-se para a Alemanha, onde uma situação política muito polarizada será determinante para o seu gradual abandono do trabalho na agência: a revolta estudantil de 1968 está em plena explosão e a linguagem publicitária, identificada como um dos pilares do consumismo, está no centro da contestação.
Cada vez mais os projectos de comunicação de Gerstner deixam o espaço para a criação artística, que, apesar de a entender tendo uma função radicalmente distinta (segundo a filosofia da Bauhaus que Gerstner abraçou ainda jovem) são qualitativamente indistintas, inscrevendo-se numa única prática de criação. Nesta perspectiva pode ser vista a sua vasta obra de reflexão sobre a permutação entre a forma e a mensagem – elementos inseparáveis – e sintetizada nas fontes tipográficas por ele criadas. É a “Tipografia integral”, a convicção de que a tipografia e a ideia que ela quer transmitir, formam um todo.
A produção artística de Karl Gerstner abrange pintura, escultura e criação de objectos, actividade que tornar-se-a a principal depois ter se retirado da direcção operativa da GGK em 1970. Tendo participado na Dokumenta de 1964 como designer, volta a Kassel quatro anos mais tarde, já convidado como artista. Expôs em 1973 no MoMA (Think Program), e em 1972 publicou o Kompendium für Alphabeten (Compêndio para alfabetos), inventário de imagens tipográficas que tornar-se-á uma referência para designers gráficos.
Em todos os trabalhos é reflectido o sonho de um exercício multidisciplinar da prática criativa segundo o pensamento da Bauhaus. Ideia que com o progredir da idade e experiência acaba por desvanecer.
Karl Gerstner vive hoje retirado da vida pública na Suíça.
Colaboradores
Design plataforma web:
-nada-
www.designbynada.com
Comunicação:
Namalimba Coelho
Press Kit disponível para download aqui: MAP_Press_Release (PDF 2mb)
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O Colectivo
O COLECTIVO DE CURADORES
O Colectivo de Curadores é um grupo de trabalho composto por Alda Galsterer, Felipa Almeida, Moritz Elbert, e Verónica de Mello. O Colectivo nasce do encontro de quatro curadores que escolheram Lisboa como plataforma para a sua actividade, após diversas experiências internacionais.
Unido por uma problemática partilhada – a falta de uma identidade cultural predefinida – o colectivo parte de uma visão pessoal, para criar um campo de reflexão estendido ao foro da sociedade.
Na criação artística contemporânea esta problemática emerge com força e vivacidade, oscilando entre os pólos da globalização e da fragmentação identitária; o colectivo sente a necessidade de mapear este espaço artístico à procura de redes de significados compartilhados.
Alda Galsterer
Alemanha, 1978. Vive e trabalha em Lisboa.
Mestrado História de Arte e Línguas e Literaturas Portuguesa e Inglesa, Universidade de Tübingen, Alemanha (2003) e Mestrado em Estudos Curatoriais da FBAUL e Fundação Gulbenkian (2010).
Trabalhou como coordenadora de exposições e edições de catálogo para o CAM, Fundação Gulbenkian, Lisboa (2004-2008). Trabalhou na Baginski, Galeria / Projectos (2007-2011), responsável pela artist liaison, comunicação, produção de exposições e relações comerciais.
Actualmente, trabalha como monitora de vários museus da Grande Lisboa (CAM, Museu Berardo, Museu da Electricidade, CHPR), e como curadora independente (desde 2008). Escreve sobre arte contemporânea em textos para catálogos. Integra o Colectivo de Curadores desde 2008.
Felipa Almeida
Lisboa, 1979. Vive e trabalha em Lisboa.
Formou-se em Historia de Arte na University College of London (UCL) em 2002 e frequentou o curso de Comissariado na Central Saint Martin’s School of Art. Em 2008/2009 fez uma pós-graduação em Estudos Curatoriais na FBAUL e Fundação Gulbenkian de Lisboa. Escreveu artigos sobre arte contemporânea, para as revistas Sur La Terre e Helvetissimo (de 2003 a 2007 ) e para a revista L+ARTE em 2003. De 2002 a 2004 trabalhou em Paris na Galeria Cosmic e no atelier da artista plástica Yi Zhou. Em 2007 co-fundou a associação cultural PuppenHaus com quem comissariou: “A Beleza do Erro” no Lx Factory (Set. – Out. 2009) e “Water Closet” no Lx Factory de Lisboa em 2010. Integra o Colectivo de Curadores desde 2008.
Moritz Elbert
França, 1976. Vive e trabalha em Lisboa.
Formado em design de espaços expositivos pelo Politécnico de Milão, frequenta em 2008 a pós graduação em Estudos Curatoriais da FBAUL e da Fundação Gulbenkian, A partir de 1999 desenvolve projectos de comunicação e imagem em âmbito cultural – continuando paralelamente a sua pesquisa em fotografia e instalação vídeo. Em 2004 cria o seu atelier de design em Lisboa, tendo colaborado como designer e curador independente.com o festival Dançasnacidade, a Experimentadesign2001, o Instituto Português de Museus, a Luzboa 2006, o Museu da Ciência, entre outras instituições portuguesas e europeias.
Co-comissária, em 2005, a exposição Arquitectos Italianos em Portugal.
Desde 2000 é responsável com Luciana Fina pela identidade do festival Alkantara e do Teatro Municipal Maria Matos. Integra o Colectivo de Curadores desde 2008.
Verónica de Mello
Lisboa, 1976. Vive e trabalha em Lisboa.
Formação em Arquitectura,1995-2000 na Universidade Lusíada de Lisboa, entre 1998 e 1999 estuda no Politecnico di Milano, Itália. 2003 cursa o Mestrado de Arquitectura, Arte e Espaço Efémero UPC em Barcelona. 2003 Pós-graduação em “Curadoria e praticas culturais em Arte e Novos Meios, no MECAD/Media Centre d’Art i Disseny da Escola Superior de Disseny ESDi.
Experiência profissional inicia-se em 2000 no Promontório Arquitectos, Lisboa, em 2004 trabalha no Atelier de Beth Gali BBGG, Barcelona onde desenvolve em co-autoria o projecto DURMIBUS protótipo design industrial. 2005 comissária “mesa de arquitecto”: vida e obra do arq. José Guedes Cruz. Já em 2006/2007 trabalha na Broadway and Malyan, Lisboa, Actualmente trabalha como arquitecta com Pedro Campos Costa e desenvolve a tese de Exposições de Arquitectura para o mestrado de Estudos Curatoriais da FBAUL e da Fundação Gulbenkian. Integra o Colectivo de Curadores desde 2008.
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Galeria 3m1: www.3m1arte.com
Galeria Baginski: www.baginski.com.pt
Galeria Pedro Cera: www.pedrocera.com
Kunsthalle Bern: www.kunsthalle-bern.ch
Kunsthalle Duesseldorf: www.kunsthalle-duesseldorf.de
Swiss National Library: www.nb.admin.ch/graphica
Swiss Institute for Art Research: www.sik-isea.ch
AGRADECIMENTOS:
André Kamber, Anisia Santos, Barbara Rohner, Edition Voldemeer Zurich, Inka Christmann, Leonor Nazaré, Miguel Amado, Pascale Keller, Rene Wochner, Susanne Bieri, Tobias Bezzola, Una Szeemann, Paula Correia da Veiga, Victor Pinto da Fonseca
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